
Durante anos, ESG foi tratado como diferencial voluntário. Um conjunto de boas práticas que as empresas mais conscientes adotavam para fortalecer reputação, atrair talentos e sinalizar responsabilidade para o mercado.
Em 2026, essa fase acabou.
A partir de 1º de janeiro de 2026, todas as empresas listadas na B3 passaram a ter a obrigação legal de publicar relatórios de sustentabilidade seguindo normas internacionais, conforme o padrão definido pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade, o CBPS, e estabelecido pela Resolução CVM nº 193 de outubro de 2023. O prazo final para a primeira publicação é maio de 2027, referente ao exercício de 2026.
Mas o impacto vai muito além das empresas de capital aberto. E entender por que exige olhar para o que está acontecendo ao redor delas.
O que mudou concretamente em 2026
A resolução da CVM estabelece que as empresas listadas na B3 devem publicar relatórios de sustentabilidade seguindo os padrões IFRS S1 e S2, emitidos pelo International Sustainability Standards Board, o ISSB. Esses padrões exigem divulgação estruturada sobre riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e, especificamente no S2, sobre riscos climáticos.
O nível de exigência é significativamente maior do que os relatórios de sustentabilidade que muitas empresas já publicavam de forma voluntária. Os novos padrões exigem dados auditáveis, metodologia documentada, rastreabilidade das informações e conexão direta com as demonstrações financeiras da empresa.
A realidade do mercado brasileiro ainda está longe desse patamar. Dos 358 empresas listadas na B3, apenas 8 decidiram antecipar voluntariamente a publicação no novo formato, e somente 2 já publicaram relatórios referentes ao exercício de 2024, segundo dados da PwC Brasil. A maioria das empresas ainda não construiu os dados primários que esses padrões exigem.
Por que isso afeta empresas que não são listadas na B3
A lógica é de cadeia de valor. Quando as grandes empresas listadas passam a ser avaliadas por critérios ESG rigorosos, elas começam a exigir os mesmos critérios dos seus fornecedores, parceiros e prestadores de serviço.
Uma montadora que precisa reportar suas emissões de escopo 3 precisa que seus fornecedores de peças também meçam e reportem suas emissões. Um banco que precisa avaliar riscos climáticos na sua carteira precisa que seus clientes corporativos forneçam dados estruturados sobre sua pegada ambiental.
No Brasil, onde a economia está fortemente integrada em cadeias produtivas complexas, esse efeito cascata está se tornando realidade em 2026. Segundo dados da Economia SC, pequenas e médias empresas que fazem parte de cadeias de fornecimento de grandes corporações já começam a receber questionários ESG estruturados como pré-requisito para manutenção de contratos.
Isso significa que a agenda ESG chegou às PMEs não como escolha estratégica, mas como exigência de mercado.
O que os investidores e o mercado estão exigindo
Pesquisa da Anbima divulgada em janeiro de 2026 revela que 87% dos profissionais do mercado de capitais brasileiro afirmam que o tema ESG ganhou mais relevância nos últimos 12 meses. Globalmente, os ativos sob gestão de fundos ESG devem alcançar US$ 50 trilhões até 2025, segundo projeções do setor.
O comportamento dos investidores já reflete essa mudança. Empresas que demonstram resultados ESG auditáveis, e não apenas declarações de intenção, conseguem condições melhores de captação, menor custo de capital e maior atratividade para investidores institucionais internacionais.
O mercado está premiando transparência com dados reais. E penalizando o que está sendo chamado de greenwashing, ou seja, discurso de sustentabilidade sem substância mensurável por trás.
Como a tecnologia e a inovação entram nessa equação
Aqui está o ponto que conecta ESG à agenda de inovação e tecnologia das empresas: o cumprimento dos novos padrões de reporte ESG não é um problema de comunicação ou de compliance jurídico. É um problema de dados e infraestrutura tecnológica.
Para reportar emissões, consumo de recursos, práticas trabalhistas e indicadores de governança no formato exigido pelos padrões IFRS S1/S2, a empresa precisa coletar esses dados de forma sistemática, armazená-los com rastreabilidade e auditá-los com metodologia documentada. Isso não se faz com planilhas e e-mails.
O Gartner aponta que ferramentas baseadas em inteligência artificial e machine learning estão ganhando protagonismo na agenda ESG exatamente por isso: elas permitem o monitoramento contínuo de emissões, a antecipação de riscos, a otimização do uso de recursos e a geração de relatórios mais precisos e confiáveis.
Internet das Coisas para monitoramento de consumo energético e emissões em tempo real, plataformas de análise de dados para consolidar indicadores de toda a cadeia de valor e automação de relatórios que antes demandavam semanas de trabalho manual são exemplos concretos de como tecnologia e ESG se conectam na prática.
Os três erros mais comuns das empresas que ainda não começaram
Tratar ESG como projeto do departamento de comunicação. ESG que fica confinado ao time de marketing ou relações institucionais nunca chega a gerar dados auditáveis. É uma iniciativa transversal que precisa envolver finanças, operações, RH, TI e a liderança executiva.
Esperar o prazo regulatório para começar a coletar dados. Empresas que vão começar a estruturar seus dados ESG em 2027, quando o prazo já estiver chegando, vão ter pouco tempo para garantir qualidade e auditabilidade. Os dados de 2026 precisam ser coletados agora.
Confundir relatório ESG com relatório de sustentabilidade voluntário. Os novos padrões do CBPS têm nível de rigor comparável às demonstrações financeiras auditadas. Não são narrativas sobre iniciativas socioambientais. São demonstrações quantitativas com metodologia documentada.
ESG como vantagem competitiva, não apenas como obrigação
Empresas que enxergam ESG apenas como custo de conformidade estão perdendo a metade mais importante da história.
Os dados mostram que organizações que adotam práticas ESG de forma estruturada atraem e retêm talentos com mais facilidade, acessam mercados internacionais com menos barreiras, têm menor custo de capital no longo prazo e constroem reputação que se traduz em preferência de compra.
No ecossistema de inovação, ESG e tecnologia já não são agendas separadas. Empresas que usam inovação para construir suas práticas ESG de forma eficiente são as que transformam uma exigência regulatória em diferencial de mercado.
Entender em que estágio a sua empresa está nessa jornada é o ponto de partida. O Diagnóstico de Maturidade em Inovação do Ideas Hub foi desenvolvido para mapear exatamente essa clareza e indicar os próximos passos concretos para avançar.

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