
Durante anos, computação quântica foi o tema de conferências de futurismo e artigos acadêmicos. Era real, era promissora, mas estava a décadas de qualquer aplicação prática no mundo corporativo. Era o que muitos acreditavam.
Em 2026, essa crença precisa ser revisada.
Nas últimas semanas, Bradesco e Itaú passaram a integrar a IBM Quantum Network, rede global da IBM que reúne mais de 500 organizações dedicadas a explorar e desenvolver aplicações de computação quântica. A confirmação veio do próprio presidente da IBM no Brasil, Marcelo Braga, que também destacou que a supremacia quântica pode ser anunciada ainda em 2026.
Quando os dois maiores bancos privados do Brasil entram simultaneamente em uma rede de pesquisa quântica, o sinal é claro: a computação quântica saiu do laboratório e entrou na agenda estratégica das corporações brasileiras.
O que está acontecendo com a IBM em 2026
A IBM construiu um dos roadmaps mais transparentes e consistentes do setor de tecnologia. Cada entrega prometida nos últimos anos foi cumprida dentro do prazo ou antes dele, o que deu credibilidade às metas que estão por vir.
Em novembro de 2025, a IBM apresentou o processador Quantum Nighthawk, com 120 qubits conectados por 218 acopladores ajustáveis de nova geração. O salto em relação ao modelo anterior representa 20% a mais de capacidade e 30% de aumento na complexidade dos circuitos executáveis. Traduzindo para o que importa: mais poder computacional com menos erro.
Em março de 2026, a IBM foi além do hardware. Apresentou a primeira arquitetura de referência para supercomputação centrada em quântica da indústria, um modelo que integra processadores quânticos com GPUs e CPUs em sistemas locais, centros de pesquisa e nuvem, para enfrentar desafios científicos que nenhuma abordagem computacional isolada consegue resolver.
A meta declarada publicamente é atingir vantagem quântica real, não apenas laboratorial, até o final de 2026. O CEO Arvind Krishna projetou que os investimentos em quântica começarão a gerar impacto mensurável em receita e lucro já em 2028 ou 2029.
Por que os bancos brasileiros estão se movendo agora
A entrada de Bradesco e Itaú na IBM Quantum Network não é uma aposta especulativa no futuro. É uma decisão estratégica baseada em casos de uso concretos que a computação quântica já demonstra capacidade de resolver com vantagem sobre a computação clássica.
Para o setor financeiro, os casos mais avançados são três.
Otimização de portfólios. Recalcular carteiras de investimento considerando milhares de variáveis simultâneas, correlações em tempo real e restrições regulatórias é um problema de otimização combinatória. Computadores clássicos resolvem versões simplificadas. Computadores quânticos têm potencial de resolver a versão real com velocidade incomparável.
Precificação de derivativos complexos. Modelos de precificação de derivativos de alta complexidade exigem simulações de Monte Carlo com um número de variáveis que sobrecarrega a computação clássica. A computação quântica pode executar essas simulações em fração do tempo atual.
Detecção de fraudes em tempo real. Identificar padrões fraudulentos em transações financeiras em volumes de escala bancária é um problema de reconhecimento de padrões em espaços de alta dimensionalidade, exatamente onde algoritmos quânticos têm vantagem teórica e demonstrada.
Entrar na Quantum Network agora não significa usar computação quântica em produção imediatamente. Significa ter acesso à infraestrutura, ao conhecimento e às parcerias necessárias para estar na linha de frente quando a tecnologia atingir o limiar de uso comercial amplo.
O que 53% dos executivos brasileiros já acreditam
Segundo dados divulgados pelo Times Brasil em parceria com a CNBC, 53% dos executivos brasileiros acreditam que a inteligência artificial habilitada pela computação quântica vai transformar seus setores antes de 2030. Esse percentual é significativamente alto para uma tecnologia que ainda não está em uso produtivo em escala.
A explicação para esse otimismo está na visibilidade crescente dos casos de uso concretos que estão sendo demonstrados. A IBM, em colaboração com o Oak Ridge National Laboratory e a Universidade de Tóquio, já acumulou demonstrações científicas de utilidade quântica real em problemas que computação clássica não resolve de forma eficiente.
Os setores além do financeiro onde a computação quântica deve gerar impacto mais cedo incluem farmacêutico, com simulação de moléculas para desenvolvimento de medicamentos; logística, com otimização de rotas e cadeias de suprimentos com milhares de variáveis; cibersegurança, com criptografia pós-quântica que protege dados contra computadores quânticos adversariais; e energia, com otimização de redes de distribuição e simulação de materiais para baterias.
A criptografia que você usa hoje pode não ser segura em 2029
Existe um aspecto da computação quântica que a maioria das empresas brasileiras ainda não está levando a sério: a ameaça à criptografia atual.
Os algoritmos de criptografia assimétrica que protegem a maioria dos dados corporativos e transações digitais hoje foram projetados para resistir à computação clássica. Computadores quânticos suficientemente poderosos podem quebrá-los em tempo viável.
O NIST, Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, finalizou em 2024 os primeiros padrões de criptografia pós-quântica. A mensagem é direta: a migração para essa nova arquitetura criptográfica leva tempo e deve começar agora.
Dados de hoje armazenados sem criptografia pós-quântica podem ser capturados agora e decifrados futuramente quando computadores quânticos mais poderosos estiverem disponíveis. É o chamado "harvest now, decrypt later", e já existe evidência de que grupos bem organizados estão fazendo exatamente isso.
Para empresas brasileiras que lidam com dados sensíveis de longo prazo, seja em saúde, finanças, jurídico ou governo, a criptografia pós-quântica precisa entrar no planejamento de segurança cibernética agora, não quando os computadores quânticos já estiverem operacionais.
O que as empresas que não são bancos deveriam fazer
A computação quântica não vai impactar todos os setores no mesmo prazo nem com a mesma intensidade. Mas o momento de agir é antes que a vantagem competitiva seja impossível de recuperar, não depois.
Para a maioria das empresas brasileiras, o passo prático não é contratar uma equipe de físicos quânticos nem investir em hardware próprio. É construir consciência estratégica sobre onde a computação quântica pode criar ou destruir vantagem competitiva no seu setor específico.
Mapeie os processos de otimização e simulação que consomem mais recursos computacionais hoje. Identifique quais problemas seriam transformados com acesso a poder computacional muito maior. Comece a auditar a arquitetura de criptografia atual para planejar a migração para padrões pós-quânticos.
O Maior Hub de tecnologia do Sul do Brasil, o Ideas Hub em Campo Mourão, acompanha essas tendências tecnológicas emergentes porque elas definem o ambiente em que as empresas e startups do ecossistema vão operar nos próximos anos. Projetos de P&D desenvolvidos hoje com acesso à Lei do Bem podem construir as soluções de amanhã para um mercado que está se formando agora.
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