
Em setembro de 2026, o Neofeed publicou uma análise que resume com precisão o dilema estratégico que o Brasil enfrenta no momento mais transformador da tecnologia global: a IA pode virar uma terceira potência entre EUA e China, e o Brasil pode lucrar com isso.
A análise é de Vance Serchuk, diretor executivo do KKR Global Institute, instituição de pesquisa da gestora de ativos americana KKR, que administra mais de US$ 600 bilhões em ativos globais. O posicionamento de Serchuk não é otimismo diplomático. É leitura estratégica de quem analisa oportunidades de investimento de infraestrutura em escala global e escolheu o Brasil como um dos mercados mais bem posicionados para capturar o crescimento em IA.
Wolfgang Schwerdtle, responsável pelo escritório do Fundo Soberano de Cingapura, o GIC, no Brasil, chegou à mesma conclusão de forma independente: ele também vê oportunidades concretas para o Brasil em meio ao avanço da inteligência artificial, especialmente em infraestrutura digital.
Quando dois dos maiores investidores institucionais do mundo convergem para a mesma tese sobre o Brasil, vale entender o que eles estão vendo.
A disputa que está redesenhando a geopolítica global
A corrida por supremacia em inteligência artificial entre os Estados Unidos e a China não é apenas tecnológica. É econômica, militar e geopolítica simultaneamente.
EUA e China investem em diferentes aspectos da cadeia de IA com intensidade sem precedente. Os americanos dominam os modelos fundacionais mais avançados, os chips mais sofisticados, via Nvidia, e o capital de risco que alimenta a inovação. A China domina a fabricação de hardware de custo eficiente, a escala de dados de usuários e a implementação industrial em velocidade que países ocidentais têm dificuldade de replicar.
O encontro entre presidentes dos dois países colocou a IA como tema central das discussões, com preocupações explícitas sobre segurança nacional e controle da tecnologia. Serchuk observa que ambos os países estão na vanguarda da IA, mas há receios crescentes sobre o que acontece com países que ficam de fora dessa corrida.
É nesse contexto que a posição do Brasil se torna relevante.
Por que o Brasil tem vantagens estruturais reais
A análise do KKR Global Institute não é baseada em entusiasmo com o Brasil. É baseada em ativos concretos que o país tem e que são escassos globalmente.
Energia renovável abundante e barata. O Brasil tem 87% de sua matriz elétrica proveniente de fontes renováveis. Data centers de IA são consumidores vorazes de eletricidade e, em 2026, empresas que precisam demonstrar pegada de carbono reduzida para seus investidores e clientes encontram no Brasil uma vantagem que países com matrizes energéticas mais poluentes simplesmente não têm.
Infraestrutura de data centers em construção acelerada. O Brasil concentra 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% da que está em construção. A Odata, controlada por um consórcio liderado pela BlackRock com participação da Nvidia, está expandindo escala no Brasil. A PwC projeta US$ 11,4 bilhões em investimentos em data centers no Brasil em 2026.
Minerais críticos para a cadeia de semicondutores. O Brasil é o líder mundial absoluto em nióbio, com mais de 95% das reservas conhecidas do mineral. Tem reservas expressivas de lítio, terras raras e outros minerais que são insumos essenciais na fabricação de chips e baterias para IA. Serchuk enfatiza que o Brasil precisa ajustar sua política doméstica para transformar essa vantagem geológica em oportunidade econômica real, e não apenas exportar os minerais brutos.
Mercado consumidor e talento técnico. Com mais de 215 milhões de habitantes e uma das maiores taxas de adoção de internet móvel do mundo, o Brasil é um laboratório natural para validação de aplicações de IA em português e em contextos de mercados emergentes. O talento técnico em engenharia de software e ciência de dados é reconhecido globalmente e, com o câmbio favorável, compete em custo com qualquer mercado.
A crítica que precisa ser levada a sério
Seria desonesto apresentar apenas o lado positivo. Há uma voz que representa o contraponto e que também tem credibilidade.
O historiador Niall Ferguson, em entrevista ao Neofeed publicada em 2026, disse algo que provocou debate: “O Brasil não tem uma estratégia para a IA, mas poderia ser um protagonista da expansão dos data centers.”
A frase captura uma tensão real. O Brasil tem ativos estratégicos. Mas sem uma política de IA que mobilize esses ativos de forma coordenada para um objetivo claro, o país corre o risco de se tornar apenas exportador de minerais e infraestrutura de rede elétrica para data centers de empresas estrangeiras, sem capturar o valor da cadeia de IA propriamente dita.
A diferença entre ser protagonista e ser apenas fornecedor de infraestrutura está na capacidade de desenvolver competências nacionais em design de chips, em modelos de linguagem com dados e contexto brasileiros, e em aplicações setoriais que resolvam problemas reais do mercado brasileiro com propriedade intelectual nacional.
É exatamente aqui que a combinação de P&D, ICTs credenciadas e venture builders tem papel crítico.
O que isso significa para o ecossistema de inovação brasileiro
Para startups e empresas inovadoras, o posicionamento estratégico do Brasil na corrida global por IA cria oportunidades que não existiam cinco anos atrás.
Capital global, como o do KKR, do BlackRock e do GIC, está procurando projetos de infraestrutura de IA no Brasil. Isso significa que empresas com propostas sólidas em data centers, eficiência energética, conectividade e Physical AI têm acesso a fontes de capital que raramente olhavam para projetos de inovação no Brasil antes de 2025.
Políticas públicas como a Nova Indústria Brasil e o novo edital de semicondutores da FINEP criam os incentivos financeiros para que essa capacidade seja construída com participação de empresas brasileiras, não apenas importada.
O Maior Hub de tecnologia do Sul do Brasil, o Ideas Hub em Campo Mourão, como venture builder e ICT credenciada, está no centro dessa convergência: ajuda a transformar as vantagens estratégicas do Brasil em negócios reais com propriedade intelectual local, utilizando os instrumentos de fomento disponíveis e construindo o ecossistema que o Brasil precisa para ser protagonista, não apenas fornecedor.
O Diagnóstico de Maturidade em Inovação do Ideas Hub é o ponto de partida para entender onde sua empresa está e como se posicionar para capturar as oportunidades desse momento.

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